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Criticar sim, mentir não (artigo na íntegra)

No livro Política e Educação, publicado em 1993, Freire tem um texto chamado: “Do direito de criticar – Do dever de não mentir, ao criticar”. Essa é a ideia-força que nos anima a escrever o que segue.

1. Em toda a história da educação escolar brasileira, a Pedagogia de Paulo Freire nunca foi predominante. Para que ela fosse predominante, seria necessário que as nossas redes e escolas cultivassem várias práticas freireanas, tais como: diálogo como princípio de construção de conhecimento, o conhecimento dos estudantes e das comunidades como ponto de partida do currículo e da didática, avaliações não classificatórias ou punitivas, tempos e espaços para recuperação das aprendizagens sem necessidade da reprovação, relações interpessoais regidas pelo respeito amoroso, gestão democrático-participativa, tempo considerável semanal de formação contínua em serviço para educadores(as), tempo real de reuniões de planejamento coletivo em serviço, presença deliberativa da comunidade na escola, valorização do salário dos(as) professores(as), enfim, uma escola humana e humanizadora. A Pedagogia de Paulo Freire não se define por um desses aspectos isoladamente. Para que ela seja praticada, é necessário que todos eles (dentre outros) sejam praticados conjuntamente. Tudo isso foi escrito e praticado por Freire.

2. No final dos anos 60 e no decorrer dos anos 70 do século XX Freire escrevia no exílio. Observava a sociedade e percebia que a opressão se manifestava (e ainda se manifesta) em várias instituições: escola, comunidade, universidade, política, trabalho, família, mídia, exército, polícia, igreja etc. Ele sabia que essas instituições sociais têm uma tendência de reforçar a ordem vigente: violenta e injusta. Mostrar como elas fazem isso é o dever de todo cientista social crítico. Foi isso que ele realizou quando desenvolveu teoricamente a relação entre opressor e oprimido.

3. Ao desvelar como essa relação se expressa no campo da educação formal, ele nos mostrou que a escola clássica se coloca politicamente a serviço da opressão. Ou seja, a educação é política, pois só pode fazer duas coisas: ou reproduz os valores e relações dominantes ou contribui com a superação de ambas em favor de outras relações e valores. Em suma, Freire não decretou que a educação é política. Ele constatou que toda educação (seja onde for) é um ato político. Quem não admite isso ou é ingênuo ou desonesto, pois até mesmo quando a escola não toma posição sobre um tema, está sendo omissa, o que também é uma posição política.

4. Para Freire, educação escolar é um dos direitos humanos. Por isso, a inclusão é uma exigência ética, política e pedagógica. O que devemos fazer é debater as melhores maneiras de garanti-la, mas nunca questioná-la como se ela não fosse desejável. Quem questiona a inclusão, questiona a educação como direito.

5. Freire era profundo conhecedor da teoria do conhecimento. Ele sabia que o processo de conhecimento exige, por parte dos sujeitos (educadores e educandos), rigor, paciência, esforço, disciplina, concentração etc. Não são poucas as passagens de sua obra em que ele afirma tudo isso categoricamente. Não é verdade dizer que as suas ideias defendem o contrário disso.

6. A denúncia que Freire faz em relação à escola clássica se justifica, dentre outros, pelos seguintes motivos: ela é excludente, seletiva, culturalmente violenta, naturaliza a sociedade hierárquica e ensina a subserviência. Os maiores prejudicados por essa lógica são os sujeitos dos grupos desfavorecidos da sociedade. Para se opor a isso, ele não negou o dever da escola ensinar conteúdos. Ele afirmou o dever da escola primeiro aprender a cultura dos(as) educandos(as) para, a partir dela, propor e trabalhar conteúdos escolares. Do contrário, a escola está fadada a ser espaço que produz repulsa pelo conhecimento.

7. Não é verdade afirmar que Freire defendia o desprezo pelo trabalho. Filosoficamente, Freire entende o trabalho como práxis, ou seja, atividade criadora e coletiva do ser humano diante da realidade. Ocorre que, na sociedade em que vivemos, o trabalho, para a esmagadora maioria da humanidade, não tem sido atividade criadora e sim alienada. Ele tem sido motivo de fadiga, adoecimento, embrutecimento: em suma, exploração. Ele não pertence ao trabalhador, que é reduzido a um mero cumpridor de tarefas decididas por um terceiro. É contra este trabalho que Freire se posiciona e não contra o trabalho em si. Freire defendia relações de trabalho em que todos sejam sujeitos do processo. Trabalho sim, exploração não.

8. Freire não era ingênuo. Ele sabia que a superação das condições de opressão exigia uma educação que não reproduzisse tais condições. É claro que isso deixa muita gente incomodada. Tem uma minoria poderosa que se beneficia das condições vigentes. Mesmo assim, quem não gosta das ideias dele, precisa manter a honestidade intelectual. Do contrário, a comunicação humana ficará reduzida a chavões, mentiras e afirmações vazias.

Grupo de Estudos e Pesquisas Paulo Freire (GEPPF), do Centro de Educação (CE) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

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